Recall na Indústria Farmacêutica: por que esperar 3 horas para rastrear um lote é um risco mortal (e como reduzir para 3 segundos)

rastreabilidade na indústria farmacêutica
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Imagine a cena: São 14h de uma sexta-feira. O telefone do departamento de Garantia da Qualidade toca. Do outro lado, um grande distribuidor relata reações adversas graves em pacientes que utilizaram um lote específico do seu medicamento mais vendido.

Em menos de 30 minutos, o que era uma tarde produtiva transforma-se em uma crise institucional de proporções alarmantes. A diretoria exige respostas imediatas. A Anvisa solicita documentos técnicos de fabricação. O mercado financeiro e os consumidores clamam por transparência e segurança.

Enquanto isso, nos bastidores, a realidade é desesperadora: sua equipe técnica ainda está abrindo planilhas complexas, cruzando códigos de lotes manualmente em arquivos de Excel e fazendo ligações urgentes para o chão de fábrica para tentar entender de onde veio aquela matéria-prima específica, em qual turno foi processada e, o mais crítico, quais outros produtos finais compartilham o mesmo risco de contaminação.

Nesse cenário de alta pressão, cada minuto de hesitação não custa apenas dinheiro; custa vidas, destrói reputações construídas ao longo de décadas e pode resultar em sanções regulatórias irreversíveis.

O tempo real como único protocolo aceitável na era digital

A indústria farmacêutica moderna opera sob o mais rigoroso escrutínio regulatório do planeta. Normas internacionais como a 21 CFR Part 11 do FDA, o EU Annex 11 da União Europeia e a RDC 658/2022 da Anvisa no Brasil não deixam margem para interpretações subjetivas: a rastreabilidade completa, imutável e auditável de todo o processo produtivo não é mais um diferencial competitivo, é uma exigência básica de sobrevivência.

No entanto, o que ainda observamos em muitas plantas farmacêuticas de médio e até grande porte é um abismo perigoso entre o discurso da qualidade total e a realidade operacional do dia a dia. Muitas empresas acreditam que possuem rastreabilidade porque guardam pilhas de papel ou arquivos digitais isolados.

Mas a verdade é que esses dados estão fragmentados em “ilhas de informação”:

  • Registros de pesagem em papel: Formulários preenchidos à mão, sujeitos a erros de transcrição e caligrafia ilegível.
  • Parâmetros de processo isolados: Dados vitais de temperatura, pressão e velocidade residem apenas nos controladores lógicos programáveis (CLPs) das máquinas, sem conexão com o sistema central.
  • Liberação de qualidade departamental: O status de inspeção fica preso em sistemas de LIMS ou planilhas que não conversam com o planejamento de produção.
  • Rastreabilidade genealógica arqueológica: A reconstrução do histórico de um produto é feita manualmente a cada auditoria, um processo lento, caro e propenso a falhas humanas.

O problema central da indústria hoje não é a falta de dados. O problema é a latência da informação e o tempo necessário para conectar esses pontos de forma coerente sob pressão.

No caso inevitável de um recall, esse tempo define se você terá a precisão de recolher apenas um lote suspeito ou se precisará retirar uma família inteira de produtos das prateleiras por mera precaução.

Os 3 minutos que poderiam custar R$ 20 milhões

Para ilustrar a gravidade do problema, imagine uma fabricante nacional de medicamentos sólidos enfrentando uma investigação rigorosa de desvio de qualidade.

Em um exercício simulado ou em uma auditoria de surpresa, a equipe leva quase 4 horas para responder a uma pergunta aparentemente simples, mas vital:

“Quais produtos acabados receberam o insumo do fornecedor X, recebido no turno Y, e foram processados especificamente na linha de produção Z?”

Neste cenário hipotético, o sistema ERP aponta a entrada do material no estoque. O sistema de pesagem indica a dispensação. O controle de produção registra os lotes processados no dia. No papel, tudo parece estar lá. No entanto, nenhum desses sistemas “fala” a mesma língua em tempo real.

O resultado dessa desconexão é catastrófico. O lote sob suspeita direta é eventualmente localizado, mas, por falta de evidências granulares sobre a integridade do processo, a garantia da qualidade é forçada a agir com excesso de cautela. Por precaução, outros 17 lotes que passaram pela mesma linha são recolhidos preventivamente.

Em um cenário real de mercado, esse movimento representaria um impacto superior a R$ 20 milhões em custos diretos de logística reversa, incineração de produtos e perda de insumos.

Isso sem mensurar o dano imensurável à imagem da marca e o desabastecimento crítico nas redes de farmácias e hospitais. Tudo isso porque a rastreabilidade não era um fluxo contínuo e inteligente, mas sim um exercício penoso de arqueologia de dados.

Os 4 pilares da rastreabilidade “Padrão Ouro”: do recebimento ao paciente

A diferença fundamental entre uma investigação de recall que consome horas de trabalho exaustivo e uma que dura apenas 3 segundos não reside na quantidade de dados coletados, mas em como eles são estruturados com contexto desde o exato momento de sua origem. Para alcançar a excelência operacional, a indústria deve focar em quatro pilares fundamentais:

1. Identificação única e imutável desde o início

O ciclo de vida digital do produto deve começar no portão de entrada da fábrica. Cada matéria-prima, cada granel intermediário e cada embalagem precisa de uma identidade digital única (como um QR Code ou etiqueta RFID) que o acompanhe por todo o fluxo.

Não basta ter um código impresso em um papel; é essencial que os Sistemas de Execução da Manufatura (MES) reconheçam essa identidade em cada etapa e a relacionem automaticamente aos parâmetros de processo vigentes naquele instante.

2. Genealogia automatizada e em tempo real

A relação “pai-filho” entre insumos e produtos acabados deve ser estabelecida no momento exato da transformação física, e não na véspera de uma auditoria programada.

Isso significa que o sistema tecnológico deve capturar, sem intervenção humana, qual silo alimentou qual tanque de mistura, qual balança dosou cada componente e qual operador estava autenticado no equipamento durante o processamento daquela batelada específica.

3. Integração nativa entre Chão de Fábrica e Gestão Corporativa (TI + TO)

De nada adianta o chão de fábrica possuir uma rastreabilidade perfeita se essa informação não transita de forma fluida para a camada corporativa. A integração com sistemas ERP (como o SAP) precisa ser bidirecional e seguir padrões internacionais como a norma ISA-95.

Isso garante que o status de um lote, seja ele quarentena, liberado ou bloqueado, reflita simultaneamente na linha de produção e no sistema de vendas e planejamento, impedindo erros humanos de expedição.

4. Audit Trail (Trilha de Auditoria) inviolável

Dentro das normas da RDC 658 e 21 CFR Part 11, cada ação que impacta a qualidade deve gerar um registro eletrônico com carimbo de tempo (time-stamp), identificação do usuário e o motivo da alteração (reason for change). Esse nível de detalhamento não serve para complicar a operação, mas para garantir que, em qualquer investigação futura, o histórico seja absolutamente inquestionável e transparente perante os órgãos reguladores.

Recall em 3 segundos: A transformação prática da gestão de crise

Quando esses pilares estão devidamente automatizados através de uma plataforma robusta, o cenário de crise descrito no início deste artigo se transforma completamente. O que antes era um motivo de pânico torna-se um procedimento operacional padrão e controlado.

Com a rastreabilidade estruturada desde o recebimento, uma consulta simples ao sistema PlantSuite MES oferece respostas em tempo recorde:

  • Identificação instantânea do lote de insumo sob suspeita.
  • Mapeamento de todos os granéis intermediários onde aquele insumo foi incorporado.
  • Lista completa de produtos acabados afetados e seus respectivos números de série.
  • Localização geográfica: os produtos ainda estão no estoque, em trânsito ou já foram entregues a clientes específicos?
  • Verificação de conformidade: os parâmetros de temperatura e pressão estavam dentro da faixa de segurança durante todo o tempo?

O que antes exigia uma força-tarefa e horas de retrabalho manual torna-se uma consulta visual, integrada e digitalmente assinada. A investigação de causa raiz deixa de ser um “chute” educado e passa a ser uma análise de dados precisa, permitindo que a empresa tome decisões baseadas em fatos, protegendo o paciente sem sacrificar desnecessariamente o lucro da operação.

O verdadeiro custo invisível da rastreabilidade manual

É muito comum ouvirmos de gestores da “velha guarda”: “Nossa rastreabilidade sempre funcionou assim no papel e nunca tivemos grandes problemas”. De fato, processos manuais podem funcionar por anos, até o dia em que eles falham de forma retumbante.

O custo oculto de manter processos manuais e analógicos não reside apenas nas horas perdidas em auditorias ou na lentidão de um recall. Ele reside na falsa sensação de segurança.

Acreditar que a equipe “dará um jeito” em caso de emergência é um risco que empresas listadas em bolsa e focadas em segurança do paciente não podem mais correr.

A indústria farmacêutica do futuro, conectada aos conceitos da Indústria 4.0, não é aquela que reage rápido a crises. É aquela que estrutura seus fluxos de dados de tal forma que a crise sequer consegue se instalar, pois os desvios são detectados e bloqueados na origem.

A tecnologia como ativo estratégico de sobrevivência

Em um setor onde a margem para erro é absolutamente zero, esperar 3 horas para rastrear um lote não é apenas um gargalo operacional; é um risco estratégico inaceitável que ameaça a continuidade do negócio.

A tecnologia necessária para reduzir esse tempo para 3 segundos já existe, é acessível e está totalmente alinhada às normas regulatórias globais. O que separa as indústrias preparadas e resilientes das organizações vulneráveis não é o porte da planta ou o orçamento disponível, mas sim a decisão executiva de tratar a rastreabilidade como um ativo competitivo e uma ferramenta de confiança, e não meramente como uma obrigação burocrática para satisfazer fiscais.

Na próxima vez que o telefone tocar com um alerta de qualidade, certifique-se de que sua empresa terá a resposta em segundos. No final das contas, quem domina seus dados não protege apenas seus pacientes; protege também a longevidade e o futuro da sua marca.

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